Não sei por quanto tempo me privei dela, sensação essa tão incrível. É quase como se apaixonar de novo. Senti depois de tanto tempo que nasci pra isso. Será esse o orgulho que os pais carregam ao ver seus filhos? Seria esse o êxtase que movia os artistas a fazerem afrescos, poesias e esculturas de tirar o fôlego? Talvez a genialidade deles fosse nada, sem essa sede insaciável de atingir o inatingível.
Não adianta se convencer do contrário. Nascemos para isso, embora nos esquecemos com o passar do tempo. Não tem idade que te impeça, nem ninguém que te roube isso, embora por vezes você se convença disso. Contudo por mais que sentimos que isso não é mais possível, essa semente não morre. Alguns a impedem de germinar de novo durante toda sua vida, mas basta ver como pequenos estimulos a acordam de novo.
Não sei se é essa a fonte de toda dor gostosa dos apaixonados, ou do frio na barriga que antecede tudo que é grande na vida, mas poderia bem ser. De origem desconhecida, a presença dessa semente germinando é muito fácil de notar. Se já nos pegamos olhando para um bebê e analisando toda a vida que vem pela frente, ou simplesmente se já sorrimos sob a perspectiva de encontrar alguém, aí se encontra essa presença.
Não precisa ser grande, nem elaborado. Não precisa se tratar de dominar o mundo, nem de dominar seu proprio mundinho. Não precisa ter objetivo definido, nem ser uma fumacinha senil desconexa da realidade. Não precisa sua vida estar perfeita, ou estar na fossa. Não precisa também excluir nenhuma dessas situações, pois ela aceita tudo.
Não se pode tomar de ninguém a semente dos sonhos.