quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Correr

Corre. E como corre. Quando crianças, é impossivel perceber como ele corre, pois na verdade nem o olhamos. Correr atrás dele, persegui-lo, ou se quer se preocupar com ele é uma ideia estúpida.  Ele parece infinitamente lento, parece que simplesmente não vai embora nunca. Ah, como são sábias as crianças. Tenho certeza que a gente fica bobo quando cresce, e passa a se importar tanto com o tal, que ele simplesmente foge, escorre em nossas mãos, e passamos o dia todo correndo atrás dele.

Sim, crescer tem por consequencia a partida dele. Ele vai embora, e fazemos o impossivel para conseguir aquilo que parecia tão simples quando criança. Mas dessa vez parece a tarefa mais complexa do mundo. Ele que estava sempre disponivel para nós, agora se esquiva com maestria. Manobras, artimanhas, artifícios, ferramentas quase brilhantes. O nosso maior esforço hoje parece ser encontrá-lo. Algumas vezes conseguimos certo sucesso, outras vezes é um esforço em vão.

Ele corre, ele passa. Ele é grande, mas é tão curtinho... bem irônico, é verdade. Apesar de sabermos exatamente onde ele está, parece muito difícil alcançá-lo. Sabemos que por vezes ele está sobre nossas mãos, mas ainda assim é tão distante. Outras vezes o vemos de relance, enquanto andamos na rua. No alto de torres, em algumas paredes, podemos ver marcas da sua passagem. Mesmo assim, essas mesmas marcas nos chamam mais atenção quando o estamos perseguindo, apesar de serem marcas que permanecem sempre nos mesmos lugares.

Ele sempre esteve onde está. Depois, em idade já avançada, dizem as línguas mais cruéis e amargas que o reencontramos, mas somos fracos demais, vazios demais, velhos demais para aproveitar a façanha de enfim tê-lo novamente descoberto. Muitas vezes a presença dele ao nosso lado é considerada vil e amaldiçoada. Achamos que ele volta simplesmente para caçoar o quanto fomos estúpidos em não ver ele passar por nós todos os dias.

Quem é ele? Ele é o tempo.

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